Eu não prometi que voltaria? Então. Ei-me. OK, acho que essa construção não existe, mas eu acho que vocês entenderam aonde eu quis chegar. Depois de algum tempo escrevendo para alguns lugares distintos sobre assuntos pontuais, cá estou eu, escrevendo sobre o que bem me interessa. E, após muita reflexão, decidi que nada me interessa. Porque, vejam bem... Nesta geração de twitter, na qual podemos falar sobre tudo que temos vontade, é mais fácil decidir o que NÃO interessa. E, meus amigos, se tem algo que o twitter me ensinou, é que existe um vasto grupo de coisas desinteressantes nesse mundo. E qual não foi minha surpresa ao descobrir, mais de 8 mil tweets depois, que faço parte deste desagradável bando?
Sabem... Quem diria que dá pra falar tanta merda em 140 caracteres? Surpreendente, não? Mas cá estamos nós, nessa superação diária, ficando cada vez mais insuportáveis. O twitter criou uma coisa de opinião compulsiva que, convenhamos, é CHATA PRA CARALHO. E não estou me tirando dessa, não... Pelo contrário. Sabem, eu nunca fui de acumular fãs, sejamos bem francos, mas pessoas que costumavam me achar no mínimo inofensiva parecem ter desenvolvido verdadeiro ASCO pela minha pessoa graças ao twitter. Ele mudou meu jeito de pensar? Não. Fez de mim uma pessoa pior? Não. Eu sempre fui igualmente podre. Mas antes eu precisava ARTICULAR meus pensamentos podres em posts. É trabalhoso, sabem. E no meio do caminho, a tendência é repensar. “OK, isso pode soar ofensivo demais”. Mas o twitter acabou com isso na minha vida. Eu não ligo se é ofensivo demais. O blackberry está na minha mão, a ideia na minha cabeça e, panz, ofendi alguém. Em 140 caracteres. É tudo deliciosamente prático e eficiente e eu... Bem, eu só precisava de uma arma rápida o suficiente para libertar minha bully interior. Eu tô muito on fire.
A graça (e o problema) do twitter é que lá é onde você começa a realmente ver a personalidade das pessoas, né... É meio como o BBB. Com aquela facilidade toda de falar, você acaba exibindo sua personalidade em algum momento, mesmo sem querer. Você está lá, com seu smartphone na mão, preso no engarrafamento e... Pronto. De repente, eis um tweet babaca comentando sobre a ineficiência do transporte público no Rio de Janeiro. Você não queria dizer isso, sabe. Você nunca quis ser uma dessas pessoas. Mas sucumbiu. E seus seguidores viram. Com o tempo, as fraquezas se tornam mais frequentes... As pessoas interagem. É um tal de mention e RT te tentando. Você quer ter RTs, você quer ver suas palavras ecoando. As coisas vão acontecendo... E, do dia pra noite: pronto, é um estereótipo de twitter. Não se acanhe, meu amigo. Estamos todos no mesmo barco. Somos todos, enfim, gigantescos estereótipos. Eles são vários, e se encontram em vários momentos. E pessoas como eu, propensas à compulsão, tendem a se encaixar em todos. E odiar todos ao mesmo tempo. É bem confuso, na verdade.
Elaboremos sobre isso... Um dos estereótipos mais básicos é o povo foursquare. Veja bem: claro que o povo foursquare não posta SÓ localização. Falo de um conceito mais abrangente; em geral, o simples fato de uma pessoa aderir ao foursquare já diz muito sobre ela. O povo foursquare é um pouquinho mais sem noção que o resto, no sentido de que não se incomoda de simplesmente falar onde está. É uma coisa na qual obviamente ninguém está interessado, mas e daí? Você quer dizer onde está, sabe-se lá por que. E diz. A pessoa foursquare é geralmente aquela que acorda e fala "hum, sono". É aquela que sente fome e diz "hum, fome". É aquela que pode informar, sem maiores constrangimentos, que está vendo televisão. Sem nem especificar o programa, claro. Isso seria trabalhoso demais. Eu sempre recriminei o povo foursquare, mas agora eu vejo que eles não são tão diferentes de nós, aliás. Na verdade, são até mais práticos. Não precisam nem se dar ao trabalho de digitar uma irrelevância, há um aplicativo que cuida disso tudo. Smart.
Aí, do outro lado, tem a galera da opinião. A galera da opinião está muito convencida de que, bem, tem algo importante pra dizer. Então, o que acontece, eles têm um processo. Geralmente atestam um fato, por exemplo: “a polícia matou nãoseiquantos. Acho chato.” Vejam bem, os opinativos sentem um pouco de remorso, ao contrário dos foursquare. Eles tentam disfarçar a própria irrelevância com uma informação antes. Seduzem o leitor de forma a fazê-lo acreditar que aquilo ali é de alguma maneira importante. E aí, quando você menos espera... BAM, OPINIÃO IRRELEVANTE. E eles tendem a terminar a opinião assim, com duas palavras. Talvez três. Pra aumentar o efeito de choque, sabem. Eles não vão simplesmente jogar um fato ou um sentimento. Eles vão contextualizar. E provavelmente usarão memes da década passada para enfeitar aquela opinião. Os opinativos são bem espertinhos, esses aí.
Aí tem os engajados. Os engajados vão aderir a todo tipo de hasthag e movimento que tiver rolando. Os engajados vão botar twibbon, os engajados vão amar o Rio, os engajados vão rezar pelo Japão, os engajados vão dar RT em apelos pelo Egito, pela Líbia, pelo Piauí... Os engajados vão morrer de pena da capela da ECO pegando fogo. Os engajados são admiráveis, até, porque acreditam numa coisa de força da internet que eu acho comovente. Nem todos os engajados acreditam que uma hasthag vá mudar qualquer coisa, claro, mas no fundo no fundo eles curtem sentir que estão movimentando, construindo, que estão participando de algo maior que eles. Os engajados são os órfãos da ditadura que, na falta de uma galera pra ir pra rua reclamar da vida, querem participar via twitter. São tímidos, ineficientes e frustrados visionários. Mas visionários, há de se reconhecer. E isso é corajoso num mundo cada vez mais apático.
Os engajados são especialmente corajosos porque lidam com uma raça perigosa... Os anti-engajados. No caso, eu. Os anti-engajados não só não querem participar de nada como vão zoar todos que, dear god, OUSAM participar. Os não-engajados são os bullies da TL. São aqueles que não podem ver uma hasthag que querem atacá-la tal qual uma piñata recheada de docinhos. Os anti-engajados curtem oprimir, ver o circo pegar fogo, causar constrangimento. Os anti-engajados veem um tweet engajado e zoam logo depois, refocilando na inibição dos oprimidos. Nós, os não-engajados, somos os covardes. Nós, os anti-engajados, zoamos quem twitta em outros idiomas, quem twitta citação, quem lamenta algo particular... Nós somos chatos, implicantes, escrotos. Nós somos os babacas. Os engajados, tímidos que só eles, calam-se perante nossa opressão. Veem um manifesto anti-engajamento e pensam “é, melhor não”. E se retiram pra almoçar sozinhos no banheiro, porque os não-engajados tão tocando o terror no recreio.
Aí, tem aqueles que não são engajados nem anti-engajados: são os “questionadores”. Esses são bem irritantes. Eles se recusam a assumir uma posição sobre o assunto do momento. Eles opinam sobre alguns assuntos, claro, mas sempre sobre pautas frias. Jogam uma coisinha aqui ou acolá, nada que possa criar muita intriga. Mas, quando o negócio esquenta, eles ficam na deles. Ficam quietinhos, à espreita, apenas aguardando enquanto os anti-engajados soltam toda a munição em cima dos pobres engajados. E aí, lançam um questionamento bombástico. “O que é pior: se lamentar ou atacar quem se lamenta?”. O ataque é esperto porque é em frente dupla. Ele provavelmente receberá comentários dos dois lados da questão, e brincará de advogado do diabo. Jogará um engajado contra um não-engajado, e se sairá como o “ponderado” da questão. Lamentará a polarização de sua timeline, pobres seres radicais, e observará do alto de seu trono de reflexão e racionalidade. Os questinadores não apartam a briga, jamais. Eles incitam a polêmica. Como inspetores de colégio que, vendo o pau comer, deixam a parada ficar feia o suficiente antes de chamarem a diretora da escola. E narram tudo em detalhes sádicos, recheados de julgamento e satisfação contida. São semeadores silenciosos da discórdia.
Em paralelo a tudo isso, ainda temos os monocórdicos, ou seja, aqueles que só sabem falar sobre um assunto e o esgotam até o fim. Temos os monocórdicos de futebol, os monocórdicos de MMA, os monocórdicos de cinema, os monocórdicos de televisão... Varia. Os monocórdicos, em geral, não curtem sair do assunto. Eles veem seus twitters como, por que não, uma forma de utilidade pública. Os monocórdicos têm informação e opinião, eles buscam fundamentar o que dizem e gostam de pensar que as pessoas vieram a seus twitters por um motivo. Eles querem fidelizar, garantir que aquele cara que chegou até ali por um motivo não vai dar unfollow. Unfollow é um TEMOR ABSOLUTO do monocórdico, e ele VAI EVITAR QUE ISSO ACONTEÇA. Nem que isso signifique segurar a vontade de comentar a eliminação do BBB. Ou de comentar aquele gol ridículo que só o Renato Abreu poderia perder.
Os twitters monocórdicos, e aí é importante diferenciar, às vezes sequer são intencionais. Tem gente que só sabe mesmo falar de um assunto só... Tem gente que, realmente, na falta de coisa melhor pra fazer, só sabe fazer maratona de séries. Só sabe ir ao cinema e achar coisas sobre os filmes. Só sabe ler o globoesporte.com e reclamar das contratações do time. São espécimes emg eral solitários, devo dizer, mas geralmente autênticos. Tendem a não sair muito disso. Já os monocórdicos intencionais, e eu digo isso por experiência própria (já tentei ser uma), são calculados, cuidadosos... Mas têm seus dias contados. A tentação é forte e, em algum momento, o cotidiano vai sair pelos seus dedos. E aí é questão de tempo... Até você perder seus seguidores fiéis, receber unfollows dolorosos e ler indiretas. Ah, meus amigos, digo a vocês que dói. Mas passa. Afinal... Quem aguenta quem só sabe falar de uma coisa só, né não?
No fim das contas, somos todos muito muito chatos. E acho que sempre soubemos disso, mas é cmo dizem: nada como a convivência para trazer o que há de pior nas pessoas. E foi isso que o twitter fez. Permitiu que todos convivêssemos diariamente, como uma grande e disfuncional família. Eis que, do nada, estou ciente de cada passo do dia de dezenas de pessoas com as quais eu sequer troco duas palavras no msn. Eu sei o que elas comem, o que elas ouvem, onde elas almoçam e qual tipo de bunda preferem. E elas aprendem que eu odeio engarrafamento, citação da Clarice Lispector e gente que atravanca a Lagoa no meio da minha corrida de sábado. O problema disso tudo é que ninguém perguntou. E meio que ninguém quer saber. O fato é que, em menor ou maior escala, todos viramos informação demais.
